Vocês já se deram conta da parcela da população que vive em meios urbanos?
Só na América Latina, mais de três quartos da população vivem em áreas consideradas urbanas. Mais de 5.000 habitantes que vivam em núcleos caracterizam um espaço urbano. Em 1800, esse percentual era de 3%, foi para 6% em 1850, um pouco mais de 28% em 1950 e em 1970 passou de 38%.
Esse crescimento descontrolado e todos os problemas que vão se acumulando fez com que a vida em grandes cidades passasse a ser percebida com um misto de sentimento de orgulho, satisfação, descontentamento, frustração e medo. A cidade é vista como um espaço de concentração de oportunidades de satisfação de necessidades básicas materiais e imateriais, mas, também, como um local crescentemente poluído (em todos os sentidos).
Apesar da gravidade dos problemas constatados, o leitor que se dirigir a uma livraria buscando uma obra para informar-se sobre a natureza dessas questões irá se desapontar. As discussões sobre esses assuntos não faltam, mas ficam confinadas em ambientes acadêmicos ou de profissionais de planejamento urbano. As obras disponíveis foram escritas de especialistas para especialistas. Ao grande público restam as opiniões, análises e impressões veiculadas pela imprensa. Há uma enorme carência de análises que sejam corretas, profundas e abrangentes.
Refletir sobre as cidades e seus problemas significa refletir sobre algo que muitos acham ter "a" resposta na ponta da língua. Ouve-se: "O problema é a falta de planejamento", com ar de quem está de posse da verdade suprema e inquestionável. "É preciso impedir a formação de novas favelas" clamam outros (afinal, as favelas são, para muitos moradores da classe média, "antros de marginais", ameaças constantes à paz e ao valor dos imóveis de sua propriedade). Nota-se que abrigam estereótipos, clichês, preconceitos lamentáveis e perigosos, na esteira de equívocos e simplificações. A mídia mais contribui para reproduzir e amplificar visões distorcidas que para corrigí-las.
Entender a cidade e as causas de seus problemas é uma tarefa menos simples do que se pode imaginar. E entender corretamente é uma condição prévia indispensável à tarefa de se delinearem estratégias e instrumentos adequados para a superação desses problemas.
Só que, informar-se sobre essa temática não deve ser visto como tarefa para especialistas: ainda que em nível muito aproximativo e genérico, os indivíduos não versados no assunto precisam conhecer as causas dos problemas dos espaços onde vivem e as linhas gerais dos debates correntes sobre como superar os problemas.
Essa é a única maneira de participar ativamente, como cidadão, da vida da cidade, não se deixando tutelar e infantilizar tão facilmente por políticos profissionais e técnicos a serviço do aparelho de Estado.
Fica a dica: ABC do desenvolvimento urbano, de Marcelo Lopes de Souza, 2003.

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